EM RESUMO
Se tiveres uma cesariana anterior, podes ter duas opções principais: tentar um parto vaginal após cesariana (VBAC) ou planear uma cesariana repetida. Nenhuma opção é 100% segura: o que muda é o tipo de risco, quando ele acontece e como ele pesa para ti e para futuras gravidezes.
Nos estudos recentes, o VBAC em mulheres bem selecionadas tem taxas de sucesso tipicamente entre 60% e 80%. A tentativa de parto após cesariana tem um risco pequeno, mas real, de rotura uterina. A cesariana repetida evita esse risco intraparto, mas aumenta a exposição a cirurgia e a riscos cumulativos em futuras gravidezes.

Quais são as opções?
Em termos simples, podes discutir duas estratégias com a tua equipa: planear um parto vaginal após cesariana ou repetir a cesariana. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 20231 concluiu que a tentativa de trabalho de parto após cesariana esteve associada a maior risco de rotura uterina, asfixia neonatal e morte perinatal do que a cesariana repetida eletiva, mas o mesmo corpo de evidência também mostra que o VBAC evita uma nova cirurgia quando tem sucesso.
Uma revisão de 20242 e as recomendações FIGO de 20253 descrevem o parto vaginal após cesariana como uma opção segura para muitas mulheres bem selecionadas, com taxas de sucesso geralmente entre 60% e 80%, sobretudo quando há parto vaginal prévio, indicação não recorrente para a primeira cesariana e início espontâneo do trabalho de parto.
O que influencia mais a segurança para a mãe e o bebé?
Os fatores que mais influenciam a discussão são: tipo de incisão uterina anterior, número de cesarianas anteriores, modo de início do trabalho de parto (espontâneo ou induzido) e a probabilidade de um parto vaginal após cesariana resultar. O risco não é igual para todas as mulheres.
Se o trabalho de parto começar espontaneamente
Quando o trabalho de parto começa sozinho, o parto vaginal após cesariana tende a ter maior probabilidade de sucesso e menor risco do que quando é necessária indução. As recomendações FIGO de 20253 sintetizam a evidência recente e situam o risco de rotura uterina, para uma mulher com uma cesariana transversa baixa, na ordem de 0,3% a 0,7%.
Se for preciso induzir o trabalho de parto
A indução não é automaticamente proibida, mas precisa de ponderação cuidadosa. Estudos recentes mostram que a indução pode alterar as probabilidades de parto vaginal e o perfil de risco, dependendo da indicação, da maturidade cervical e do método usado.
Num estudo publicado em 2025 com grávidas de baixo risco e uma cesariana anterior, a indução eletiva às 39 semanas esteve associada a maior probabilidade de parto vaginal do que a atitude expectante4. Já um estudo de 20255 em mulheres com uma cesariana anterior submetidas a indução mostrou que o uso de prostaglandina vaginal e uma história de distócia como indicação da cesariana anterior aumentaram a probabilidade de nova cesariana. Em linguagem simples: “indução” não é uma realidade única. O contexto e o método importam muito.
Tipo de incisão: porque é tão importante?
A evidência recente é muito mais robusta para mulheres com uma cesariana segmentar transversa baixa – a cicatriz uterina mais comum. É nesse grupo que se concentram a maioria dos dados favoráveis ao parto vaginal após cesariana.
Pelo contrário, quando a incisão anterior foi clássica (vertical no corpo do útero) ou em T invertido, a literatura científica recente continua a tratá-la como situação de risco muito mais elevado e, por isso, o parto vaginal após cesariana geralmente não é recomendado. As recomendações FIGO de 20253 recordam que, nas poucas séries disponíveis após incisão clássica, foram reportadas taxas de rotura e deiscência claramente superiores às observadas após incisão transversa baixa. Aqui, o mais importante não é decorar um número isolado, mas perceber que este tipo de cicatriz muda a recomendação clínica.

E se já tiveste duas cesarianas?
Os dados disponíveis sugerem que o risco de rotura uterina tende a ser mais elevado após duas cesarianas anteriores do que após uma, embora as estimativas variem entre estudos e populações6.
Na revisão publicada no American Journal of Obstetrics and Gynecology, os autores referem que alguns estudos mostram um aumento do risco ao comparar tentativa de parto após duas versus uma cesariana anterior. Num desses estudos citados7, foram descritas taxas de rotura uterina de cerca de 1,8% após duas cesarianas versus 0,9% após uma cesariana6.
Importa sublinhar que estes valores provêm de estudos mais antigos incluídos na revisão, e que a evidência mais recente apresenta alguma variabilidade, não permitindo estabelecer um valor único aplicável a todas as mulheres6.
Isto não significa que um parto vaginal após duas cesarianas seja impossível. Significa, sim, que a decisão deve ser ainda mais individualizada, tendo em conta fatores como o tipo de cicatriz uterina, o contexto clínico e a disponibilidade de uma equipa e estrutura hospitalar capazes de responder rapidamente a eventuais complicações.
Como comparar parto vaginal planeado após cesariana e cesariana repetida?
O parto vaginal após cesariana planeado expõe a um risco pequeno, mas real de rotura uterina e de cesariana intraparto se o parto vaginal não acontecer. Em contrapartida, quando o parto vaginal após cesariana resulta, evita uma nova cirurgia e tende a associar-se a menos hemorragia pós-parto grave e menos internamento neonatal, como mostrou um estudo observacional de 2025 em ambiente hospitalar estruturado8.
A cesariana repetida programada praticamente elimina o risco de rotura durante o trabalho de parto, mas continua a ser uma cirurgia abdominal. Isso significa riscos operatórios próprios e, sobretudo, aumento progressivo de complicações em futuras gravidezes com cada nova cesariana, incluindo placenta prévia e placenta acreta.

O que perguntar para tomar uma decisão informada
Podes levar estas perguntas para a consulta: qual foi o tipo de incisão uterina da minha cesariana anterior?
Tenho fatores que aumentam ou diminuem a probabilidade de um VBAC bem-sucedido?
Se eu não entrar em trabalho de parto sozinho, que métodos de indução estão a ser considerados e como mudam o risco?
O hospital onde vou ter o bebé consegue fazer uma cesariana urgente se for necessário?
Como é que cada opção afeta uma eventual gravidez futura?
Quadro 1. Resumo comparativo
| Questão | Tentar Parto Vaginal | Programar Cesariana |
| Risco de rotura uterina | Pequeno, mas real; mais relevante se houver indução ou fatores de risco. | Muito baixo se não houver trabalho de parto. |
| Recuperação | Geralmente mais rápida se o parto vaginal acontecer. | Recuperação pós-cirúrgica. |
| Se o parto vaginal não acontecer | Pode terminar em cesariana intraparto. | Já é cirurgia planeada desde o início. |
| Futuras gravidezes | Evita acumular mais uma cicatriz uterina. | Cada nova cesariana aumenta riscos placentários e cirúrgicos futuros. |
| Quando tende a ser mais favorável | Uma cesariana transversa baixa, probabilidade razoável de VBAC e contexto hospitalar preparado. | Quando há contraindicação ao VBAC ou quando a mulher privilegia uma cirurgia programada. |
Quadro 2. Fatores que mudam a conversa
| Fator | Tende a favorecer mais a tentativa por um parto vaginal | Tende a favorecer mais a programação da cesariana |
| Tipo de cicatriz | Segmentar transversa baixa. | Clássica, em T, ou tipo desconhecido com forte suspeita de incisão corporal. |
| Início do trabalho de parto | Espontâneo. | Necessidade de indução, sobretudo se o colo estiver desfavorável. |
| Número de cesarianas | Uma cesariana anterior. | Duas ou mais, porque a evidência aponta para risco mais alto. |
| História obstétrica | Parto vaginal prévio ou indicação não recorrente para a primeira cesariana. | História de distócia recorrente, obesidade ou feto muito grande podem reduzir a probabilidade de sucesso. |
Mensagem final
A melhor decisão não é a mesma para toda a gente.
A nossa missão, na clínica UTERUS, é fornecer-te informação clara, verdadeira, honesta, personalizada e com base científica, numa linguagem acessível, que faça sentido para ti.
Quadro 3. Quais as percentagens encontradas nos diferentes estudos analisados?
| Situação / comparação | Resultado principal | Números | Fonte |
| Parto vaginal após cesariana em mulheres bem selecionadas | Taxa de sucesso | 60% a 80% | FIGO, 2025 |
| Parto vaginal após cesariana com uma cesariana transversa baixa | Risco de rotura uterina | 0,3% a 0,7% | FIGO, 2025 |
| Indução eletiva às 39 semanas vs atitude expectante em grávidas de baixo risco com uma cesariana anterior | Probabilidade de parto vaginal | 38,0% vs 31,8% | Ukoha et al., 2025 |
| Indução eletiva às 39 semanas vs atitude expectante em grávidas de baixo risco com uma cesariana anterior | Aumento relativo da probabilidade de parto vaginal | +32% (risco relativo ajustado 1,32) | Ukoha et al., 2025 |
| Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Rotura uterina | 1,7% vs 1,1% (valores de um estudo hospitalar específico, superiores aos habitualmente descritos na literatura) | Chatzistergiou et al., 2025 |
| Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Hemorragia pós-parto grave | 5,6% vs 10,4% | Chatzistergiou et al., 2025 |
| Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Internamento neonatal | 6,5% vs 13,3% | Chatzistergiou et al., 2025 |
| Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Diferença absoluta no risco de rotura uterina | 0,6% | Chatzistergiou et al., 2025 |
| Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Número necessário de cesarianas repetidas para evitar 1 rotura uterina | ≈167 cesarianas repetidas (diferença absoluta de risco 0,6%) | Chatzistergiou et al., 2025 |
Quadro 4. Contributos dos diferentes estudos citados
| Estudo | Tipo de estudo | Dados/Comparação | Principais conclusões úteis para a prática |
| Qiu et al., 2023 | Revisão sistemática e meta-análise | Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | A tentativa de parto vaginal após cesariana esteve associada a maior risco de rotura uterina, asfixia neonatal e morte perinatal quando comparada com a cesariana repetida eletiva. No entanto, os riscos absolutos permanecem baixos em ambos os grupos. |
| Chen et al., 2024 | Meta-análise | Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Confirmou um maior risco de rotura uterina e de Apgar inferior a 7 aos 5 minutos no parto vaginal após cesariana. A cesariana repetida apresenta menor risco neonatal agudo, mas isso não significa melhor perfil global a longo prazo. |
| Deshmukh & Hibbard, 2024 | Revisão clínica | Síntese da evidência sobre parto vaginal após cesariana | O risco de rotura uterina depende de vários fatores: tipo de cicatriz uterina, número de cesarianas anteriores, indução do trabalho de parto, existência de parto vaginal prévio e contexto assistencial. Destaca a importância da avaliação individualizada. |
| Ukoha et al., 2025 | Estudo observacional | Grávidas de baixo risco com uma cesariana anterior: indução eletiva às 39 semanas vs atitude expectante | A indução às 39 semanas aumentou a probabilidade de parto vaginal, sem aumento da morbilidade materna ou neonatal. Mostra que, em contexto selecionado, a indução pode ser uma estratégia favorável. |
| Frykman et al., 2025 | Coorte retrospetiva | Mulheres com uma cesariana anterior submetidas a indução do trabalho de parto | O risco de nova cesariana foi maior quando a cesariana anterior tinha sido por distócia e quando foi usada prostaglandina vaginal. Mostra que o sucesso depende do contexto clínico e método de indução. |
| Chatzistergiou et al., 2025 | Coorte retrospetiva | Tentativa de parto vaginal após cesariana vs cesariana repetida eletiva | A tentativa de parto vaginal esteve associada a menor hemorragia pós-parto grave e menos internamentos neonatais, apesar de um ligeiro aumento do risco de rotura uterina. |
| FIGO, 2025 | Recomendações de boa prática | Síntese da evidência internacional | O parto vaginal após cesariana tem taxas de sucesso de 60% a 80% em mulheres bem selecionadas. O risco de rotura uterina em mulheres com uma cesariana transversa baixa situa-se em cerca de 0,3% a 0,7% e é maior com indução. |
| RCOG, 2015 | Guideline baseada em evidência | Parto vaginal planeado após cesariana vs cesariana repetida eletiva | Para aconselhamento clínico, estima morte perinatal relacionada com o parto de 4 por 10.000 no parto vaginal planeado após cesariana, comparada com 1 por 10.000 ou menos na cesariana repetida eletiva. |
Em conjunto, estes estudos mostram que:
– As meta-análises mostram diferenças em termos relativos, mas quando traduzidas em números absolutos, os riscos continuam baixos, especialmente quando o trabalho de parto começa espontaneamente e a mulher é bem selecionada.
– A cesariana repetida reduz o risco agudo intraparto, mas implica cirurgia e riscos acumulados.
– O resultado depende muito de: tipo de cicatriz, número de cesarianas anteriores, se o trabalho de parto começa espontaneamente ou é induzido, contexto clínico e organização dos cuidados.
Aqui na Clínica UTERUS acolhemos a mulher e sua família na sua individualidade, promovendo e respeitando a sua liberdade e autonomia.
Fornecemos a evidência científica e clínica, ajudando-te a entendê-la e integrá-la, conjuntamente com a tua evidência interna, para empoderar e fortalecer a tua decisão.
Depois de tomares a tua decisão, podes contar com a nossa equipa para te apoiar nessa escolha, ajudando a potenciar a sua segurança, rumo a uma experiência positiva.
Referências
- Qiu L, Zhu J, Lu X. The safety of trial of labor after cesarean section (TOLAC) versus elective repeat cesarean section (ERCS): a systematic review and meta-analysis. J Matern Fetal Neonatal Med. 2023;36(1):2214831.
- Chen X, Wang H, Feng J, et al. The impact of a trial of labor after cesarean versus elective repeat cesarean delivery: a meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2024;103(7):e37182.
- Barnea ER, Ramašauskaitė D, et al. FIGO good practice recommendations for vaginal birth after cesarean section. Int J Gynaecol Obstet. 2025.
- Ukoha EP, et al. Induction of labor vs expectant management among low-risk patients with 1 prior cesarean delivery. Am J Obstet Gynecol. 2025.
- Frykman J, Nilsson E, Wiberg-Itzel E, Wallstrom T. May the indication for a previous cesarean section affect the outcome at trial of labor in women with induction of labor? A retrospective cohort study. Acta Obstet Gynecol Scand. 2025;104(1):194-202.
- Deshmukh U, Hibbard JU. Trial of labor after cesarean, vaginal birth after cesarean, and the risk of uterine rupture. Am J Obstet Gynecol. 2024;230(3S):S909-S919.
- Macones GA, Peipert J, Nelson DB, et al. Maternal complications with vaginal birth after cesarean delivery: a multicenter study. Am J Obstet Gynecol. 2005;193(5):1656–1662.
- Chatzistergiou K, et al. Maternal and neonatal outcomes in women undergoing trial of labor after cesarean compared with elective repeat cesarean section: a retrospective cohort study. BMC Pregnancy Childbirth. 2025;25:8447.
- Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Birth after Previous Caesarean Birth. Green-top Guideline No. 45. London: RCOG; 2015.